sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Quaresma

Na ultima noite de carnaval, batendo a porta atrás de si, saiu sem nem olhar pra trás. Também sabia que mais do que a porta de seu prédio, era a porta de uma temporada que se fechava. Era um vento fresquinho soprando, levemente gelado, polar, pensou, que como introduzindo o inverno, apenas enganava em pleno verão.
A calçada úmida e intoxicada pelo pó, que primeiro suspenso pelos carros, e depois assentado pela umidade dos dias chuvosos, dava a tom da noite. Como se pudesse sentir cada grão de pó que roçava sobre seus pés, cada pequeno fluxo de ar ao redor do corpo, cada nuvem lenta e vigorosa cortando o breu noturno vertiginosamente, foi atravessando as ruas e praças, vazias de gentes. Apenas vultos se moviam nas sombras, entre as árvores e por trás dos arbustos. Uma sensação de vulnerabilidade e destemor. Era o que havia ali, nem mais nem menos, até a porta do encontro.
Num rompante de trombetas tímidas os sentidos se modificaram como um vento que muda de direção abruptamente. A calma e a tranqüilidade deram lugar a uma inquietação infantil e suave, junto a uma ansiedade madura e espessa. Deu-se então um passo a mais para o Inesperado.
Como o movimento dos fantasmas perseguindo, foi perfurando os andares um a um subindo por entre vitrines como sobem as temperaturas de um termômetro tocado por um corpo febril. O último lance de escadas foi uma grande orquestra em primeira nota uníssona e... Fim. O silêncio e o vácuo das emoções eram ensurdecedor, um grito desesperado de mãe órfã. Ergueu-se um grande bloco de gelo e todos os músculos se rebelaram.
-Olá.
-Oi.
As mãos se apertaram, e o bloco, desprendido, caiu ao mar, bloco inteiro, flutuante. O ar se suspendeu por dois segundos e sentaram-se.
-Tudo bom?
-Tudo e com você?
-Também. Vi muitas listras.
Eram outros olhos, mais profundos e tão inquietos. Outra pele, outro corpo, outras mãos. Mais completo. E máscaras relutantes de uma última noite de carnaval, que aos pouco iam perdendo as forças nas garras. Que viessem a cair nos 40 dias!
As palavras saiam meio alvorotadas, meio travadas, meio oblíquas. E os olhos alegres e desconfiados. Ah! os olhos... não descansavam e dançavam com as pálpebras, indicando a música tensa que pairava no ar. A inaudível música dos autofalantes.
Dois barcos ancorados, na simpatia de um sol, travam suas conversas íntimas, suspeitas, espectadoras. Suspeitas muitas. Dois estrangeiros. O medo obscuro e o desejo profundo de amarem e serem amados, sentimentos que nunca poderiam ser revelados, mesmo quando obvios. Os dois, a água, o gás, o limão, o copo, a mesa, os outros, o banheiro e o tempo, harmoniosamente flutuavam pesados e aconteciam naquele ínfimo ponto do universo, sem que se tivesse a oportunidade de ter pudores.
Pausa.
Automaticamente a conversa volta a fluir como um rio que não se entende, somente se observa. Estiagem.
Agora, cúmplices, saíram, já não como um e outro, mas um par sem definições, só par e pronto. Caminharam até a porta da intimidade, ou da oportunidade, e sobre sus rodas fugiram como dois amantes através dos campos e para a colina até o topo, além, pros lados do lago. Um casal de raposas que escapava da matilha. Permissivas e alertas, tocaram-se. No meio da noite um gosto de sol no frio da madrugada. Como leite, como mel, como sorvete de limão.
O som tocava e tocava. Numa sinfonia ao mesmo tempo doce e amarga dando o ritmo aos passos em falso e aos passos corretos.
-Gostei de você...
-Que medo...
O massacre da afeição anunciava seu fim quando se aproximava o topo da noite. O estrangeiro em sua oportunidade locomotiva correu as ruas em busca da casa. Sendo assim depois de duas necessárias paradas introdutórias a uma despedida, se deixaram. Com aquele ar de satisfação controlada e macia, leve.
Um pro mar, outro a ficar. Caminhou mais sete minutos e novamente estava a porta do prédio, outra, nova, das estações que mudaram, mas sem se saber ao certo o que mudou. Destrancada em um passe de mágica, cruzou o limite fora-dentro, entrou.Fechou a porta atrás de si. E nem olhou pra trás.